sábado, 26 de dezembro de 2009

A POESIA DE ARMÉNIO VIEIRA



|CANTO FINAL OU AGONIA DUMA NOITE INFECUNDA

Como a flor cortada rente e desfolhada
ou os olhos vazados da criança
e o seu fio de pranto tênue e impotente
assim a noite caminha com os astros todos em vertigem
até que se atinge o ponto da mudez
a pesada mó triturando a sílaba
a garganta com as cordas dilaceradas
e uma lâmina ácida e pontiaguda enterrada ao nível da carótida

Entenda-se isto como noite e o seu transe derradeiro
tanto assim que a flor desfeita
não embala o coração do poeta
oh não
porque a flor defunta
se voa
não sobe nunca
e só dura
o espaço breve duma nota
Assim o canto se detém imóvel
como se da flauta
falhando súbito
na boca do poeta
ficasse o hiato
ou a saliva
de um tempo devassado por insectos cor de cinza
A voz suspensa e negada
cede a vez à letra amorfa
inscrita no silêncio
com seu peso
de chumbo e olvido
acaba o poema
e um ponto final selando tudo.




         O Prêmio Camões, criado em 1988 pelos  portugueses e                   
         brasileiros, distingue todos os anos escritores
         dos países lusófonos.



         O poeta Arménio Vieira foi a escolha do júri de 2009
         para o Prêmio Camões, tornando-se assim o primeiro
         cabo-verdiano a ser distinguido com um dos maiores
         prêmios literários da língua portuguesa.





                                                                                                                                        foto JULIEN LAGARDE
|MAR


Mar! Mar!
Mar! Mar!


Não o mar azul
De caravaelas ao largo
E marinheiros valentes


Não o mar de todos os ruídos
De ondas
Que estalam na praia


Não o mar salgado
Dos pássaros marinhos
De conchas
Areia
E algas do mar


Mar!


Raiva – angústia
De revolta contida


Mar!


Do não-repartido
E do sonho afrontado


Mar!


Quem sentiu mar?







|ISTO É QUE FAZEM DE NÓS

                                                   Isto!
E perguntam-nos:
                                                - sois homens?
Respondemos:
                                                - animais de capoeira.
Dizem-nos:
                                                - bom dia.
Pensamos:
lá fora...


Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
                                               - estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
                                               - dormimos.




                                                                                                SANTO ANTÃO
|LISBOA – 1971
A Ovídio Martins e Oswaldo Osório


Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.
Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela
Em verdade éramos o gado mais pobre
d’África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.
E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber d’onde… ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.
Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.
E num camião, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d’inverno.





|CONSTRUÇÃO NA VERTICAL

Com pauzinhos de fósforo
podes construir um poema.
Mas atenção: o uso da cola
estragaria o teu poema.
Não tremas: o teu coração,
ainda mais que a tua mão,
pode trair-te. Cuidado!
Um poema assim é árduo.
Sem cola e na vertical,
pode levar uma eternidade.
Quando estiver concluído,
não assines, o poema não é teu.

(Textos retirados de uma antologia, ainda inédita, organizada por José Luiz Tavares)




Arménio Vieira nasceu na Praia, ilha de Santiago, em 29/01/1941. Foi integrante da geração dos anos 1960 da poesia cabo-verdiana. Geração marcada por uma poesia marcada pela revolta e combate ao governo colonial português, à época sob a ditadura salazarista.


Arménio Vieira escreveu quatro livros, dois de poemas e dois romances, respectivamente, “Poemas” e “Mitografias e “O eleito do sol” e “No inferno”, fora vários outros textos publicados de forma dispersa em revistas como "Fragmentos", "Boletim Imbondeiro" e "Vértice", sobretudo, em Cabo Verde.


O poeta foi recentemente agraciado com o Prêmio Camões. Pela primeira vez um autor de seu país atingiu tal reconhecimento, o que valerá para dar maior visibilidade à literatura de Cabo Verde.


Vieira foi um dos fundadores da revista Seló (1962), que seguia a proposta de publicar textos de cabo-verdianos para Cabo Verde fundamentada pela Claridade e por Certeza, marcos da literatura do arquipélago. Arménio participou com um poema no seu segundo e derradeiro número; não devemos estranhar a quantidade escassa de edições devido à forte perseguição que os opositores da ditadura sofriam, logo, qualquer manifestação com voltas à libertação das colônias era rapidamente sufocada.


A poesia de Vieira apresentava as preocupações com o estado em que se encontrava o país, relia temas pertinentes à geração claridosa como o mar, o que podemos conferir no trecho do poema publicado em Seló.

3 comentários:

  1. Parabéns pelo projeto... muito bacana!!!
    Se quiser conhecer meu blog ai está o endereço:


    http://www.dofonodeoxum.blogspot.com/

    Sucesso!

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  2. Quero fazer parte desse grupo. Sou fotógrafo, sou negro e tenho alguns trabalhos. Fui o primeiro fotógrafo negro a ganhar(e não levar) o prêmio Vladimir Herzog de Direitos Humanos.Quero receber as notícias dessa página!

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  3. Prezado Ronaldo,
    envie os seus contatos. Teremos o prazer de divulgar o seu trabalho. Flávia Portela

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