sábado, 20 de novembro de 2010

SOLANO TRINDADE

O POETA DO POVO
  1908-2008   


Em 2008 o projeto Cara e Cultura Negra homenageou
Francisco SOLANO TRINDADE
                                              O POETA do POVO

Boa parte da obra produzida no Brasil pelas minorias, como os afro-descendentes, permanece ainda para nós pouco conhecida, na quase total invisibilidade.

Divulgar a obra de nossos poetas é também um dos objetivos do projeto CARA E CULTURA NEGRA  que tem uma bela oportunidade para exercer essa sua função primordial.

Criador incansável, foi precursor das mobilizações culturais e políticas que vieram a se constituir nos movimentos de afirmação da identidade negra no Brasil. No dia 24 de julho de 1908 nascia Solano Trindade. No bairro de São José, o sapateiro Manuel Abílio, seu pai, dançava pastoril e bumba-meu-boi com vizinhos. Solano os acompanhava e “aprendia na fonte”.

Sua mãe, Emerenciana (ou dona Merença), quituteira e operária, pedia que seu filho lesse para ela novelas, literatura de cordel e poesia romântica. Ali o menino pegava gosto tanto pela palavra cantada quanto pela leitura e escrita, bagagens para o seu futuro caminhar mundo adentro.
Solano – cujo nome, segundo outro poeta, Sérgio Vaz, “vem do latim e significa ‘vento do levante’, mas há quem interprete como ‘vento forte da África’”–, estudou na escola até o equivalente ao 2º grau e cursou um ano de desenho no Liceu de Artes do Recife. Sua formação desenvolveu-se mais e melhor fora das instituições, nas andanças (coletivas) pelo país, sempre acompanhadas por muitos irmãos-artistas.

Solano Trindade carregava na pele negra as motivações de sua luta.  Mas essa não era a única razão. A causa era muito maior, era a causa da maioria. Era a fome amontoada na Maria Fumaça da Leopoldina. Estava nas caras tristes e cansadas que lotavam os vagões da locomotiva logo de manhã, os rostos que, no mesmo trem, seguiam tristes e exaustos ao entardecer. Francisco Solano Trindade, que completaria 100 anos em 24 de julho de 2008, cantava em seus versos, de forma simples e lírica a realidade dos morros, as mazelas de um país adepto do racismo cordial. As situações presentes no cotidiano de milhares de brasileiros até hoje, tornam os textos do “Poeta do Povo” incontestavelmente atuais e fazem do centenário deste artista mais que uma data comemorativa.

Solano Trindade colocou em versos, de forma simples e lírica, as lutas do povo explorado e oprimido do país, os sonhos de uma liberdade que até hoje não se fez presente aos negros, o resgate de uma riquíssima cultura afro-brasileira.

Foi pesquisador, cineasta, homem de teatro, pintor e um dos maiores animadores culturais do seu tempo, merecedor de destaque na história das artes brasileiras.
Solano não foi só amor às artes: dedicou seu talento à luta do negro pela igualdade racial e social no país e, acima de tudo, foi um combatente do movimento de resistência negra e um aguerrido defensor da igualdade racial no país, tendo sido para muitos o criador da poesia ‘assumidamente negra no Brasil’ e, por isso, gostava de ser chamado de ‘o poeta negro’.

Para se ter uma idéia da importância do poeta, que era filho de um humilde sapateiro do bairro de São José, basta uma rápida reconstituição de sua biografia.
Depois que deixou o Recife e fixou residência no Rio de Janeiro, Solano Trindade foi o idealizador do I Congresso Afro-Brasileiro e, anos mais tarde (1945), criou, com Abadias do Nascimento, o Teatro Experimental do Negro.

Depois (1950), concretizou um dos seus grandes sonhos, fundando, com apoio do sociólogo Edson Carneiro, o Teatro Popular Brasileiro (TPB). Em 1955 criou o Brasiliana, grupo de dança brasileira que bateu recorde de apresentações no exterior.

No teatro, foi Solano Trindade quem primeiro encenou (1956) a peça "Orfeu", de Vinícuis de Morais, depois transformada em filme pelo francês Marcel Cammus.
Mas a biografia de Solano Trindade não pára por aí. Em São Paulo, onde o TPB empolgou platéias no Teatro Municipal, foi ele quem transformou a cidade de Embu num centro cultural onde dezenas de artistas passaram a viver da arte.

No exterior (Praga), realizou o documentário "Brasil Dança". Como ator, trabalhou nos filmes "Agulha no Palheiro", "Mistérios da Ilha de Vênus" e "Santo Milagroso".
E mais: foi co-produtor do filme "Magia Verde", premiado em Cannes. Na literatura, Solano estreou em 1944, com "Poemas de uma Vida Simples" e publicou ainda outros dois livros: "Seis Tempos de Poesia" (1958) e "Cantares ao Meu Povo" (1961).
Enquanto atuou na vida cultural brasileira, Solano Trindade ("esse genial poeta", na classificação de Carlos Drummond de Andrade) recebeu os maiores elogios da crítica.

Seu livro de estréia, por exemplo, foi classificado por Otto Maria Carpeaux como "uma pequena preciosidade". Tinham opinião semelhante sobre a sua poesia, nomes de peso como Afonso Schmidt, Roger Bastides, Fernando Góes, Arthur Ramos e Nestor de Holanda. Já o trabalho do Teatro Experimental do Negro (TEN) foi, segundo Darcy Ribeiro, "um núcleo ativo de conscientização dos negros, para assumirem orgulhosamente sua identidade e lutar contra a discriminação".
Aliás, todo o trabalho de Solano Trindade (quer no teatro, dança, cinema ou literatura) tinha como características marcantes o resgate da arte popular e, sobretudo, a luta em prol da independência cultural do negro no Brasil.
A ponto de Sérgio Milliet chegar a escrever que "poucos fizeram tanto quanto ele pelo ideal de valorização do negro em nossa terra".

O certo é que, durante a estréia no Rio, em maio de 1945, o TEN sofreu violentos ataques dos conservadores. Em editorial, o jornal O Globo chegou a afirmar que se tratava de "um grupo palmarista tentando criar um problema artificial no País".
Solano Trindade nasceu no Recife a 24 de julho de 1908. Aqui, criou em 1932 a Frente Negra Pernambucana, mas o movimento não vingou.

Enquanto viveu no eixo Rio-São Paulo, ao mesmo tempo em que sua obra ganhava fama entre a crítica nacional e repercussões no exterior, nunca deixou de realizar oficinas para operários, estudantes e desempregados.

Em 1944, por conta do poema Tem Gente com Fome, foi preso e teve o livro "Poemas de uma Vida Simples" apreendido. Em 1964, um dos seus quatro filhos (Francisco) morreu numa prisão da ditadura militar. A 20/02/ 1974, Solano Trindade morreu, num hospital no Rio de Janeiro.

Um das poucas tentativas de trazer de volta o nome de Solano Trindade para o grande público ocorreu entre 1975, quando o poema Tem Gente com Fome iria integrar o disco dos Secos & Molhados.

Mas, como explicou João Ricardo (que musicou o poema), problemas com a censura impediram a gravação. Só em 1979, Ney Matogrosso gravaria a canção Tem Gente com Fome, no seu LP "Seu Tipo".

Além disso, em 1976 a escola-de-samba Vai-Vai, do Bexiga, São Paulo, desfilou no carnaval com o enredo em homenagem ao poeta. E em 2001 uma pequena editora (a Cantos e Prantos, SP), reuniu a obra do poeta no volume "Solano Trindade - O Poeta do Povo".

O lançamento do livro no Recife estava programado para julho de 2000, numa iniciativa de uma filha de Solano Trindade que viria do Rio de Janeiro especificamente com esse objetivo.

Mas, em decorrência das limitações estruturais da editora, o lançamento não ocorreu e a edição está longe de constituir um justo resgate da obra do escritor que dedicou toda a vida ao estudo sério e aprofundado da cultura negra e, um dia, declarou:

"A minha poesia continuará com o estilo do nosso populário, buscando no negro o ritmo, no povo em geral as reivindicações sociais e políticas e nas mulheres, em particular, o amor.  
Deixem-me amar a tudo e a todos".

 
 ‘Nem só de poesia vive o poeta
há o "fim do mês"
o agasalho
a farmácia
a pinga
o tempo ruim, com chuva
alguém nos olhando
policialescamente
De vez em quando
um pouco de poesia
uma conta atrasada
um cobrador exigente
um trabalho mal pago
uma fome
um discurso à moda Ruy
E às vezes uma mulher fazendo carinho
Hoje a lua não é mais dos poetas
Hoje a lua é dos astronautas’

Nem só de poesia vive o poeta
Solano Trindade1969
















2 comentários:

  1. Lágrimas de Areia

    Lá estava ela, triste e taciturna.
    Testemunha de efêmeros conflitos,
    Com um olhar perdido no tempo,
    Não exigia nada em troca
    A não ser um pouco de atenção.

    Sentia-se solitária, oca,
    Os homens admiravam-na pelos seus dotes.
    As crianças, em sua eterna plenitude,
    Admiravam-na muito mais além...
    ... Mais humana!

    De sua profunda melancolia
    Lágrimas surgiram.
    Elas não umedeceram o seu rosto,
    Mas secaram o seu coração,
    O poço da alma,
    Aumentando cada vez mais
    A sua sede.

    Lá ela permaneceu; estática, paralisada!
    Esperando que o vento do norte a levasse
    Para bem longe dali!

    O dia começou a desfalecer.
    Seu coração, outrora seco e vazio,
    Agora pulsava em desenfreada arritmia.
    Desespero!
    A maré estava subindo...

    Em breve voltaria a ser o que era:
    Um simples grão de areia.
    Quiçá um dia levado pelo vento,
    Quiçá um dia... Em um porto seguro.


    Do livro (O Anjo e a Tempestade) de Agamenon Troyan

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