sexta-feira, 28 de abril de 2017

MUSEU AFRO BRASILEIRO





O Museu Afro Brasil, no Parque Ibirapuera em São Paulo, destaca a perspectiva africana na formação do patrimônio, identidade e cultura brasileira, celebrando a Memória, História e a Arte Brasileira e a Afro Brasileira.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Brasil precisa rever como trata os negros, diz professor Nelson Inocêncio


Brasil precisa rever como trata os negros, diz professor ativista
Professor da Universidade de Brasília (UnB), Nelson Inocêncio vê contradição: de um lado, Estado garante as cotas raciais nas universidades; de outro, permite o extermínio de jovens negros





            Nelson Inocêncio: “Precisamos de medidas mais enfáticas em relação à violência, porque estamos numa situação limite”


Sionei Ricardo Leão, especial para o Congresso em Foco
Doutor em artes plásticas, o professor da Universidade de Brasília (UnB) Nelson Inocêncio é um ativista da causa da igualdade racial reconhecido nacionalmente.  Para ele, é inegável o avanço conquistado pelos negros no país desde a implantação das cotas nas universidades. Mas o momento, acredita, é de reavaliar as políticas afirmativas, voltadas sobretudo para a população afrodescendente.
Um dos maiores desafios, aponta, está na área da segurança pública em razão dos dados alarmantes sobre homicídios de jovens negros. Em Brasília, para cada jovem branco assassinado, há sete jovens negros vítimas de homicídio, exemplifica o professor. Uma realidade que se repete em todo o país, segundo as estatísticas. “Os governos, com uma mão, oferecem e implementam medidas para o avanço; e com a outra, agridem. Isso é muito estranho”, diz Nelson Inocêncio.
De acordo com o último Mapa da Violência, divulgado este ano, houve um salto assustador no número de vítimas de assassinato negras na última década. Enquanto diminuiu de 19.846, em 2002, para 14.928, em 2012, o contingente de vítimas brancas, o de negras aumentou de 29.656 para 41.127 no mesmo período.
“Precisamos de medidas mais enfáticas em relação à violência, porque estamos numa situação limite. Esse dano terrível que é a mortalidade da população negra precisa ser enfrentado”, defende. Militante do PSB, mesmo partido do governador eleito, Rodrigo Rollemberg, o professor diz que é preciso reformular a secretaria distrital de Promoção da Igualdade Racial para enfrentar problemas de gestão e aproximá-la das demandas da sociedade.
Congresso em Foco - A seu ver, qual é o contexto em que estamos quando se trata da defesa da igualdade racial e combate ao racismo no Brasil?

Nelson Inocêncio – Estamos num momento em que precisamos avaliar o alcance dessas políticas, pois nos falta compreensão mais abrangente sobre os êxitos delas. Além disso, precisamos nos situar do ponto de vista institucional. É inquietante verificar que, ao mesmo tempo em que o Estado adota ações avançadas nessa área, por outro, conduz e mantém um aparato que reprime de forma extremamente violenta a população afrodescendente, principalmente, a juventude negra. Ou seja, os governos, com uma mão, oferecem e implementam medidas para o avanço; e com a outra, agridem. Isso é muito estranho.

O que o leva defender que é momento de reflexão?
Em primeiro lugar, temos que reconhecer que o Brasil é outro desde a adoção dessas políticas afirmativas, até porque se passaram pelo menos dez anos de que essas ações vêm sendo adotadas na área da igualdade racial, um conceito que se consagrou. Portanto, é chegada a hora de verificarmos os resultados disso tudo. Ao mesmo tempo, é preciso mais diálogo com os movimentos sociais propiciados pelas estruturas de governo que estão à frente desses projetos. Estou me reportando à Seppir nacional (Secretaria de Promoção da Igualdade Racial da Presidência da República) e às pastas correlatas nas esferas estaduais e municipais. Um bom exemplo é o Juventude Viva, adotado pelo governo federal, que tem um papel preventivo, que pode ser um mote para compreendermos a qualidade dessas políticas. Em resumo, penso que não basta adotar essas ações. Precisamos de medidas mais enfáticas em relação à violência. Repito isso sempre porque estamos numa situação limite. Esse dano terrível que é a mortalidade da população negra precisa ser enfrentado.

Um dos maiores alcances dessas políticas tem a ver com as cotas nas universidades…
Sim. A UnB onde leciono é um espelho disso. Hoje ao caminharmos pelo campus da instituição é evidente que houve uma mudança marcante. Quero dizer, não se pode ignorar que as reservas de vagas garantiram o ingresso de milhares de jovens negros nos cursos, o que é um dado novo, uma realidade importante. Isso também está ocorrendo em praticamente todos os estados, o que nos leva a refletir e considerar sobre novas relações acadêmicas em todos os sentidos.

Falando um pouco agora da sua militância partidária, como o PSB trata internamente temas como diversidade, tolerância religiosa e combate ao racismo?
O PSB possui na sua estrutura um conjunto de segmentos que constituem o movimento social, como o movimento de mulheres, LGBT, juventude, sindical, popular e movimento negro. Tais segmentos vêm alimentando o projeto político do partido há anos. De modo que um governo protagonizado pelo PSB deve contemplar as demandas apresentadas pelos próprios núcleos do partido. É nesse sentido que eu vejo a futura gestão Rollemberg, ou seja, que não prescindirá do compromisso com a causa negra e outras causas.

Qual é o perfil do movimento negro no PSB?
Dentro de nossa legenda esse segmento chama-se Negritude Socialista Brasileira (NSB), que está organizado nacionalmente e que possui uma executiva nacional composta por dez membros. No DF a NSB teve papel relevante há quatro anos na discussão juntamente com PCdoB, PDT e PT, que se traduziu numa carta ao governador e que derivou na criação da atual Secretaria para a Promoção da Igualdade Racial do DF.

Mas vocês não compuseram a pasta…
Na época o PT, após a criação da secretaria, decidiu não compartilhar responsabilidades no que diz respeito à formulação de políticas na questão racial, assumindo integralmente a secretaria e recusando dividir decisões e compromissos com a base aliada. Por isso, decidimos não integrar formalmente a pasta. Mais tarde houve um rompimento, inicialmente, em nível local, quando em plenária realizada em dezembro de 2012, o PSB-DF decide sair da base aliada que dava sustentação ao governo Agnelo. No ano seguinte, o PSB nacional também deixou a base de apoio ao governo Dilma Roussef e deu inicio à construção da candidatura de Eduardo Campos à presidência da República, até porque as práticas de não compartilhamento eram gerais. Na minha avaliação, o governo Agnelo se aproximou muito mais dos partidos de direita que compunham a sua base aliada, confinando ao isolamento os outros partidos.

O que o PSB tem a oferecer na área da igualdade racial ao DF?
O partido tem a oferecer para a população negra políticas públicas que denotem o reconhecimento do Estado com a dividida histórica de cunho racial com a população afrodescendente.

Em termos de ações como se traduz isso?
No plano da segurança queremos garantir e intervir para enfrentar as taxas alarmantes de mortalidade da população negra. Pretendemos contribuir para a realização de cursos perenes nas escolas de polícia para a mudança da qualidade da intervenção policial. Na educação, a meta é a do desenvolvimento de um programa efetivo para a implementação das mudanças na Lei de Diretrizes e Bases, fruto da promulgação das leis 10.639 e 11.645 (ensino da temática indígena). É igualmente importante garantirmos a manutenção das políticas de acesso da população ao ensino superior. Na cultura, a intenção é a do fortalecimento das entidades religiosas de matriz africana como o fomento de iniciativas artísticas e culturais protagonizados por negros e negras. No Fundo de Apoio à Cultura (FAC), como já acontece em nível federal, por exemplo, deve-se destinar uma parcela dos recursos para a cultura afro-brasileira. Na saúde, implementação de cursos de qualificação dos profissionais para apreender a lidar com as enfermidades que afetam com mais frequência a população negra, porque há um profundo desconhecimento sobre isso. Nas relações de trabalho, desenvolvimento de estratégias sistemáticas ao racismo institucional nas empresas públicas. Aprimoramento dos mecanismos de combate à discriminação racial no trabalho.

É possível dar conta disso com a atual estrutura?
Boa pergunta. A nossa compreensão é que a pasta precisa se fortalecida e contar com aporte de recursos. Há várias demandas, mas acrescento outra muito relevante que é a da mulher negra, na área da saúde. Isso é decisivo porque há vários indicadores que apontam para uma fragilidade desse segmento na rede hospitalar. Penso também que a valorização da estética e da autoestima têm um recorte especial na questão de gênero.

Existem críticas que vêm circulando na imprensa, classificando a Sepir-DF como outras pastas da atual gestão como espaços de mero preenchimento de cargos e que, portanto, deveriam ser extintos ou reduzidos. O que o senhor pensa a respeito?
Quando um órgão público possui problemas de gestão, nós extinguimos o órgão ou mudamos a gestão, essa é a grande questão? Tudo tem a ver com prioridades. Consideremos o fato da população negra do DF ser mais de 53% do contingente local, consideremos o fato dessa população viver as mais diversas vulnerabilidades, como no caso da violência que atinge de forma fatídica a juventude negra. Éramos, ate 2012, a quarta unidade mais violenta da federação e nesse mapa o recorte racial também assusta.  Em Brasília, para cada jovem branco morto, sete jovens negros perdem a vida vítima de homicídios. Somos umas das unidades da federação onde a população negra mais cresce proporcionalmente. Todavia, é um crescimento desassistido, o que nos obriga a pensar a otimização das políticas públicas. Logo, razões existem de sobra para justificar a existência de uma secretaria, o que não significa concordar com sua má gestão.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

A DIÁSPORA AFRICANA, presente em
todos os cantos do mundo, representa
parte fundamental do patrimônio cultural e
político africano e dos países de
acolhimento e mantém viva a consciência
de suas origens


"Ah! mulheres negras
essas impressionantes
sempre a importar a mais funda
ancestralidade!
Ah! mulheres, úteros de verdades
tamanhas!
Geração de vida permanente
junto ao silêncio da profusão de cores das
formas de vida!
Ah! mulheres-esteio! Sois marcas do
fundamento da humanidade
desde África
se espraiando por um planeta sem sentido
onde dar depende do que se tem de volta!
Ah, essas mulheres, essas negras
veludos de conforto e aflição.
Ah! mulheres, velhas mulheres negras
portando a sabedoria do porvir
que não perdoa
aqueles que não se fazem irmãos!!!
Mulheres negras"

Ana Maria Felippe












segunda-feira, 17 de abril de 2017

Conheça o Afroflix


Abdias Nascimento - Ação afirmativa: o debate como vitória

Abdias Nascimento - Ação afirmativa: o debate como vitória


O debate sobre as ações afirmativas…
“eminentemente político, que reflete a visão de mundo dos que dele participam, e também - o que se costuma deixar de lado - as posições que cada um ocupa na sociedade.” DA TRIBUNA DA Câmara costumava dizer que a Abolição da Escravatura no Brasil não passava de uma bela mentira cívica. Hoje posso reafirmá-lo com o apoio de pesquisas quantitativas produzidas nas últimas décadas por instituições respeitadas como o IBGE e o DIEESE, que vêm revelando a extensão do hiato entre negros e brancos no Brasil.A diferença nos salários, na escolaridade, na expectativa de vida e na mortalidade infantil mostra uma desigualdade racial tão ampla, persistente e difusa que não pode ser explicada pela herança da escravidão ou as diferenças de classe.


                 Foto.: Ricardo Stuckert

Pesquisas qualitativas mostram os mecanismos de racismo nas escolas e nos meios de comunicação, responsáveis por manter, reforçar e atualizar a imagem (e auto-imagem) negativa da população negra. A polícia e o Judiciário dispensam um tratamento discriminatório aos afro-brasileiros no contexto de um quadro de violência em que os jovens negros sofrem uma elevadíssima taxa de mortalidade.
Tudo isso contribui para manter a população negra afastada das riquezas do país, na base da pirâmide social, nas piores condições de saúde e habitação. Agregado à ideologia do branqueamento, esse quadro me levou a denunciar o genocídio contra os negros no Brasil.

Levantamentos feitos por órgãos de pesquisa encontram eco em relatórios como os da OEA (Organização dos Estados Americanos) e da Comissão dos Direitos Humanos da ONU. O mito da “democracia racial” vem sofrendo um golpe de morte, apesar dos esforços revivalistas de uma pequena elite acadêmica.O movimento negro e seus aliados nas arenas da academia, da política e da mídia passaram a elaborar e propor medidas, não para acabar com o racismo e a discriminação, o que seria demasiado ambicioso, mas para elevar a auto-estima da população negra e proporcionar-lhe um grau de igualdade de oportunidades. As notas dos alunos cotistas são semelhantes às dos demais, desmentindo as previsões catastrofistas de queda do padrão de ensino.

Desde 2001, medidas de ação afirmativa têm sido adotadas pelo governo federal, por Estados e municípios, nas áreas do ensino superior e do funcionalismo público. O sistema de cotas para negros (e também para indígenas, segundo a região) está sendo implementado por cerca de 30 universidades públicas, federais e estaduais, com resultados que superam as expectativas: as notas dos alunos cotistas são semelhantes às dos demais, desmentindo as previsões catastrofistas anunciadoras de uma possível queda do padrão de ensino. Há vários exemplos de alunos cotistas cujo desempenho acadêmico supera a média atingida pela maioria de seus colegas não-cotistas.

Outra conquista da luta anti-racista foi a lei nº 10.639, que inclui o ensino da história e da cultura africanas e afro-brasileiras nos currículos escolares, com o que se pretende abalar um dos pilares da construção de estereótipos racistas. Como não poderia deixar de ser, setores da elite branca passaram a articular uma reação. A mídia tem tido papel de destaque nesse processo, fabricando uma “opinião pública” contrária à ação afirmativa por meio de reportagens tendenciosas e editoriais apocalípticos. Enquanto isso, setores da elite acadêmica se empenham em desqualificar as pesquisas sobre desigualdade racial, em um comportamento semelhante ao de políticos em véspera de eleição.

Ao mesmo tempo, a noção de que raça não existe, hoje predominante na biologia, é transplantada para a vida social. Num passe de mágica, deixam de existir as raças como categorias sociais historicamente construídas e também o racismo. A intenção dessa falsificação canhestra é transformar os negros de alvos em produtores do racismo.A realização, em poucos dias, de duas manifestações, uma contra e outra a favor da ação afirmativa mostra que existe vida inteligente dos dois lados do debate. A discussão que ora se trava não será decidida no âmbito das ciências jurídicas, sociais ou econômicas, já que nelas encontramos elementos favoráveis às duas posições.Trata-se de um debate eminentemente político, que reflete a visão de mundo dos que dele participam, e também - o que se costuma deixar de lado- as posições que cada um ocupa na sociedade. Esse debate, em uma sociedade que antes se refugia nas fantasias da “democracia racial”, é o melhor produto da ação afirmativa até o momento.

De minha parte, tenho certeza de que a ação afirmativa favorece a nação brasileira, ampliando as oportunidades abertas à maioria de nossa juventude para que esses meninos nos ajudem a superar as dificuldades que nos afligem há séculos.Folha de S.Paulo

TENDÊNCIAS/DEBATES - São Paulo, sexta-feira, 07 de julho de 2006
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ABDIAS NASCIMENTO, 93, escritor, professor-emérito de cultura africana no novo mundo da Universidade do Estado de Nova York/Buffalo. Foi senador (1991 e 1994-1998) e deputado federal (1983 a 1987). É um dos signatários do “Manifesto em favor da Lei de Cotas e do Estatuto da Igualdade Racial”, entregue ao Congresso Nacional nesta semana.

Fonte.:
https://www.ufmg.br/inclusaosocial/?p=62


Políticas de ação afirmativas para negros no Brasil: Considerações sobre a compatibilidade com o ordenamento jurídico nacional e internacional

 (*) Luiz Fernando Martins da Silva

"Todos os animais são iguais perante a lei, mas alguns animais são mais iguais que outros"
  (A Revolução dos Bichos, George Orwell)



Introdução 

A questão racial no Brasil tornou-se palco das atenções da sociedade e do Estado, notadamente após o presidente Fernando Henrique Cardoso reconhecer em 1995 que havia racismo e desigualdades raciais no país, ato que se fez acompanhar das primeiras políticas públicas específicas para a população negra objetivando a superação deste quadro. Vale ressaltar que tudo isso foi produto das denúncias e das reivindicações históricas e atuais do movimento negro e de setores progressistas da sociedade civil. Contudo, a implantação de políticas, programas, projetos e ações governamentais de caráter afirmativo para negros resultaram em uma polêmica há muito não vista. Podese dizer que um dos principais momentos dessas discussões ocorreu quando da implantação, no ensino público superior, de reserva de vagas para negros na UERJ, na UENF e na UNEB em 2003(1). No campo jurídico a questão está distante de pacificação e de consenso, haja vista, especialmente, a existência de ações judiciais que contestam a constitucionalidade dessas medidas afirmativas. Operadores do Direito, Professores e Pesquisadores da área jurídica divergem sobre a oportunidade e a constitucionalidade das políticas implantadas pelo Estado brasileiro por diversos motivos, dentre os quais: a violação do princípio da igualdade, do mérito, da proporcionalidade, da Federação, da autonomia universitária; e até mesmo a inexistência de critérios seguros ou científicos para se identificar os beneficiários das medidas destinadas aos pardos e às pessoas com deficiência. Outras críticas são dirigidas aos critérios adotados por algumas universidades para selecionar e identificar os beneficiários das políticas afirmativas, como ocorre no processo de seleção da Universidade de Brasília. Demais disso, não podemos olvidar a insuficiente interdisciplinaridade existente entre ciências jurídicas e ciências sociais no Brasil. A carência de artigos, dissertações e teses enfocando o assunto nas escolas de Direito tem colaborado para o pouco desenvolvimento do tema direito - relações raciais. Nesse sentido, a jurista Dora de Lima Bertúlio(2), refletindo sobre essa realidade, pontifica que: Na medida em que o conhecimento e a reflexão, indutores que são de nossa identidade, são componentes privilegiados da mudança de comportamentos, intervenção e julgamentos das pessoas em suas relações interpessoais e com o Estado, a carência de estudos e trabalhos sobre racismo, discriminação racial e direitos raciais da população negra permite perpetuar: a) os estereótipos racistas de incompetência do povo negro para se autogerir e desenvolver adequadamente nas sociedades contemporâneas (socialistas ou capitalistas); e b) o descaso do setor jurídico, na sociedade brasileira, para implementar direitos específicos que diminuam o impacto do racismo na qualidade de vida de quase 50% da população nacional. A tendência generalizada de os currículos das faculdades de Direito serem por demais influenciados pela dogmática, pelo formalismo e pelo positivismo jurídicos consiste em outro fator que ratifica as considerações acima colocadas. Além do mais, não é comum que os operadores do direito superem essa formação tradicional dedicando-se a estudos que tratem das novidades doutrinárias havidas no próprio campo jurídico, e, especialmente, a leituras de obras da sociologia, da antropologia, da filosofia, e da ciência política. Por outro lado, a questão sobre a constitucionalidade de políticas de ação afirmativa depende especialmente do paradigma jurídico com o qual o intérprete opera. Do ponto de vista do positivismo jurídico, por exemplo, a ausência do termo "ação afirmativa" no Texto Constitucional impediria a criação e a implantação dessa política pelo Estado. Isso porque o positivismo jurídico opera exclusivamente com o método lógicodedutivo, que, assumindo os princípios da coerência e da completude do ordenamento jurídico, "procura a melhor norma jurídica dentre as normas positivas válidas, descartando assim considerações interpretativas sobre as demandas e necessidades humanas em uma sociedade"(3). Ademais, e esse ponto é fundamental, sendo a maior parte das Constituições em vigor de matriz liberal, e, portanto, baseadas na proteção de direitos civis e políticos contra qualquer tipo de discriminação, justificar a discriminação positiva pela ótica positivista é virtualmente impossível. O mesmo não pode ser dito do pragmatismo jurídico, paradigma que é essencial para a justificação legal da discriminação positiva. Não é simples coincidência histórica o fato de tais políticas terem sido instituídas pela primeira vez, no Ocidente, nos Estados Unidos, país berço da tradição pragmatista. "O método de operação do pragmatismo jurídico é conseqüencialista, isto é, o que importa no julgamento da legalidade de uma norma são os resultados de sua aplicação, seu caráter benéfico para a sociedade onde se aplica, e não a prova de sua dedução de uma norma positiva mais geral"(4). A norma positiva importa, mas é apenas mais uma fonte entre os dados empíricos oferecidos pelas relações sociais. Deve-se notar, entretanto, que o pragmatismo jurídico define um método, uma maneira de proceder, mas não o conteúdo do que é benéfico. "A adoção de políticas que operam com discriminação positiva só pode ser completamente justificada se, além do procedimento pragmatista, fizermos uma interpretação dos valores morais da sociedade em questão"(5). Essa tarefa pode ser melhor empreendida se sairmos do âmbito estrito da teoria do direito para o da teoria política normativa. Uma vez que essa transposição é feita, notamos que o paradigma positivista tem historicamente servido à posição liberal clássica, hoje também conhecida como conservadora, a qual alça a igualdade formal da lei acima da igualdade de fato no convívio social. Para alguns autores dessa corrente, a igualdade formal funciona, de fato, como suporte para a expressão de capacidades e aptidões desiguais entre os homens (por exemplo, Hayek). Por fim, no contexto das divergências jurídicas, percebe-se uma resistência incomum por parte de alguns dos autores contrários a essas políticas públicas para a população negra, haja vista que não opuseram semelhante oposição às medidas afirmativas adotadas para pessoas com deficiência e para as mulheres, por exemplo. Algumas das opiniões emitidas por juristas conceituados podem facilmente ser consideradas discriminatórias. E, também sugerem que ainda privilegiam uma visão freyreana da realidade das relações étnicas e raciais no Brasil.  


Leia mais.:  http://www.palmares.gov.br/wp-content/uploads/2010/11/Pol%C3%ADticas-de-a%C3%A7%C3%A3o-afirmativas-para-negros-no-Brasil.pdf





domingo, 16 de abril de 2017







O Centro de Apoio ao Desenvolvimento Osvaldo dos Santos Neves – CADON deu início à produção do 4º Prêmio Nacional de Expressões Culturais Afro-brasileiras. O prêmio tem como objetivo, atender as expressões artísticas de estética negra, nos segmentos de artes cênicas, música e um prêmio especial na área de preservação de bens culturais.
As inscrições de projetos estão abertas e vão até o dia 08 de maio de 2017, então se atente ao prazo final. Essa é mais uma edição do Prêmio que conta com o patrocínio da Petrobrás e que desde a primeira edição em 200, acredita e investe no projeto, que contribui para a valorização e fortalecimento dos produtores, artistas e empreendedores que trabalham com a temática de matriz africana.
O projeto também tem apoio da Fundação Cultural Palmares, que é apoiadora desde 2006 e proporcionou a concretização dessa ação afirmativa, e que vem ganhando visibilidade a cada ano, trazendo um olhar mais atento e profundo para as questões com a temática negra e que mostra a força da nossa identidade cultural que foi e é fundamental na construção de costumes do Brasil e que ainda resiste.
Nesse ano o prêmio tem algumas novidades. Nesta edição, as modalidades focam na democratização do acesso, com o objetivo de atingir pessoas de várias regiões do país, principalmente as que não têm acesso aos bens culturais e vivem longe dos grandes centros urbanos. O proponente terá a possibilidade de propor projetos inovadores, que façam uso ou não de recursos tecnológicos, podendo misturar linguagens ou veicular no ambiente virtual (website, Facebook, Youtube, Instagram).
O valor total de premiação da 4ª edição será de R$ 900.000,00 (novecentos mil reais), distribuídos entre 11(onze) projetos:
• Artes Cênicas – 05 projetos de até R$ 80.000,00
• Música – 05 projetos de até R$80.000,00
• Prêmio Especial – 01 projeto de até R$100.000,00(área de Preservação e Difusão do Patrimônio Cultural e Histórico da Cultura Afro-brasileira)
Quem Pode Participar
Pessoas jurídicas, de natureza cultural, com ou sem fins lucrativos, com efetiva e comprovada atuação na área cultural, especialmente as que promovem a difusão e a valorização das expressões culturais afro-brasileiras e que estejam em conformidade com as condições definidas no edital.
Maiores informações e inscrições, acesse o site http://www.premioafro.org/

sábado, 15 de abril de 2017



    Fonte:  FUNDAÇÃO CULTURAL PALMARES

BUMBA  MEU  BOI 

Bumba meu boi ou Boi-bumbá é uma dança surgida no século XVIII na região Nordeste. Nesse período o boi tinha grande importância simbólica e econômica (Ciclo do Gado) e tinha como grandes criadores os colonizadores que faziam uso de mão de obra escrava.

Por ser uma festa de origem negra, o Bumba Meu Boi já sofreu perseguição das elites nordestinas e também da polícia, chegando a ser proibido de 1861 a 1868.

O bumba meu boi tem influências das culturas africana, europeia e indígena e a história que envolve sua dança é de um casal de escravos, Pai Francisco e Mãe Catirina (ou Catarina). Grávida, Catirina começa a ter desejos por língua de boi. Para atender suas vontades, seu marido tem de matar o boi mais bonito de seu senhor. 

Percebendo a morte do animal, o dono da fazenda convoca curandeiros e pajés para ressuscitá-lo. Quando o boi volta à vida, toda a comunidade celebra.A brincadeira possui uma variedade de nomes e formas de apresentar o espetáculo. No Amazonas é Boi-Bumbá; Boi-de-Reis na Paraíba; Boi Surubi, no Ceará; Boi Calemba ou Calumba no Rio Grande do Norte; Rancho-de-Boi na Bahia; Bumba-de-Reis no Espírito Santo; Boi Pintadinho no Rio de Janeiro; Boi-de-Mamão em Santa Catarina e Boizinho no Rio Grande do Sul. 

No Maranhão, estado que concentra o maior número de grupos, contudo, o nome dado é Bumba meu boi; não por coincidência, é a nomenclatura mais conhecida.O festejo costuma ocorrer nos meses de junho e julho, durante as festas juninas, mas também pode acontecer em outras épocas do ano, por exemplo, de mês de novembro até 6 de Janeiro, durante o ciclo natalino. 

As suas músicas contam a história da lenda de Francisco e Catirina e reúnem vários estilos brasileiros: aboios, toadas, repente, canções pastoris e cantigas. Seu ciclo festivo e de apresentações podem ser divididos em quatro etapas: na primeira etapa, os ensaios; na segunda etapa, o batismo (quando o boi recebe todas as bênçãos do padroeiro da festa); na terceira etapa, as brincadeiras em arraiais durante o período das festividades juninas; e na quarta e última etapa, a morte do boi, que acontece no final do mês de julho.