segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Livre para trabalhar

revista Brasil no 35

Livre para trabalhar


Enquanto acumula avanços no mundo do trabalho urbano e organizado, o Brasil ainda enfrenta proprietários com mentalidade 
(e brutalidade) colonial. Felizmente, crescem no país a vergonha e as ações contra a escravidão.

O trabalhador rural Francisco Rodrigues dos Santos torceu o nariz quando recebeu a primeira oferta para trocar a lavoura pelo “roço de juquira” (limpeza de terreno para criação de gado bovino) em fazendas no Pará. Preferiu continuar ajudando o pai no cultivo de mandioca, arroz, feijão, fava e amendoim em Monsenhor Gil (PI), a 56 quilômetros de Teresina. Dois irmãos mais jovens de Francisco, porém, acreditaram na promessa de salários de R$ 600 de um “gato” – como são chamados os aliciadores de mão-de-obra Brasil adentro – que perambulava pela região em busca de pessoas como eles. Ao chegar à Fazenda Rio Tigre, em Santana do Araguaia, sudeste do Pará, um deles telefonou para a família. Disse que estavam bem no “novo emprego” e previu que em breve passariam a enviar dinheiro.




Francisco animou-se. Duas semanas depois, subiu num ônibus com destino a outra fazenda no sudeste do Pará “atendida” pelo mesmo “gato”. O agente garantiu alojamento, alimentação, roupas e equipamentos por conta do empregador e adiantou R$ 40, que Francisco deixou com a mulher e seus dois filhos. Chiquinho, como é chamado, e outros 13 conterrâneos chegaram a Santana do Araguaia e pegaram outro coletivo até Vila Mandir, à beira da Rodovia BR-158, próximo à divisa com Mato Grosso. De lá até a trilha que dava para a fazenda foram de caminhonete; e daí ao local onde trabalhariam caminharam por horas pela mata.


A realidade não se assemelhava em nada às juras do “gato” ou ao relato do irmão. Os empregados foram informados que teriam de pagar em dobro o valor deixado às suas famílias. O reembolso dos custos do transporte e demais itens (alimentação, ferramentas, equipamentos etc.) também sairia caro. Estava feita mais uma vítima do perverso esquema de servidão por dívida, expediente comum da escravidão contemporânea. O grupo foi alojado em barracas de lonas indecentes, sob ameaças e a vigilância de capangas armados. De domingo a domingo trabalhavam das 6h às 17h. Bebiam da mesma água servida ao gado e sofriam com alimentação inadequada. “Tenho para mim que meu irmão disse que estava tudo bem para não preocupar a família e para que eu fosse para perto dele, o que poderia ser uma ajuda”, lembra Francisco.

Depois de passar seis meses trabalhando, os peões receberam a visita do “gato”.


Foram orientados a se embrenhar na mata em caso de movimentação, pois agentes da “Federal” (a Polícia Federal normalmente acompanha as operações de fiscalização do Ministério do Trabalho) certamente “chegariam atirando”. Poucos dias depois, capangas recolheram todos da propriedade e sorrateiramente os levaram até a rodoviária de Santana do Araguaia. Ao subir no ônibus de volta para o Piauí, cada um recebeu um envelope branco com R$ 240, quitando meio ano de sofrimento.


O meticuloso esquema do “gato” visava evitar outro flagrante. O grupo móvel de fiscalização do MTE tinha acabado de vasculhar outra propriedade nas redondezas: justamente a Fazenda Rio Tigre, que recrutou os irmãos de Francisco em condições semelhantes, de onde o grupo libertou 78 pessoas. O proprietário, Rosenval Alves dos Santos, teve de arcar com verbas rescisórias e foi processado pelo crime de trabalho escravo. Há três anos está no cadastro elaborado pelo governo federal com pessoas físicas e jurídicas envolvidas em processos como o dele, cujo nome é o 175º da lista.


Quem entra nessa “lista suja” enfrenta restrições de crédito nos bancos públicos e corre o risco de perder negócios com empresas que assinaram o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo, que reúne mais de 180 companhias, responsáveis por um quinto do PIB nacional.


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